A perfeita discípula –

Quando veneramos a santidade de nossa Mãe, exaltamos sua glorificação e nos esquecemos de que ela também trilhou o caminho da fé, foi peregrina, pois descobriu quem era Jesus, entre as incertezas dos acontecimentos conturbados que o Filho protagonizou em confronto com a Lei, os sacerdotes e os fariseus.

“[…] Através de sua fé (cf. Lc 1,45) e obediência à vontade de Deus (cf. Lc 1,38), assim como por sua constante meditação da Palavra e das ações de Jesus (cf. Lc 2,19.51), é a discípula mais perfeita do Senhor. Interlocutora do Pai em seu projeto de enviar seu Verbo ao mundo para a salvação humana, com sua fé Maria chega a ser o primeiro membro da comunidade dos crentes em Cristo, e também se faz colaboradora no renascimento espiritual dos discípulos. Sua figura de mulher livre e forte emerge do Evangelho conscientemente orientada para o verdadeiro seguimento de Cristo” (Documento de Aparecida, n. 266).

“Jesus deixa claro que o seu seguidor necessita desenvolver algumas atitudes básicas: O que caiu em terra boa são aqueles que, ouvindo com um coração bom e generoso, conservam a Palavra e dão fruto pela perseverança (Lc 8,15).

Três palavras-chave resumem a condição de ser discípulo de Jesus: ouvir, guardar, frutificar. Com esse molde nas mãos, Lucas pinta os traços da figura de Maria. Mostra que ela tem exatamente as qualidades que caracterizam o seguidor de Jesus. Maria ouve a Palavra de Deus com fé, guarda no coração e a põe em prática.”[1]

Maria acolhe a proposta de Deus (Lc 1,26-38)

Maria é o solo bom e fecundo que faz a semente germinar, primeiramente em seu coração e depois em seu ventre. Recebe o anúncio do anjo, saudando-a como “cheia de graça” e recomendando que não tivesse medo de conceber e dar à luz o Filho de Deus. Maria conversa com o anjo perguntando como seria isso, pois não tinha relação com nenhum homem. O anjo lhe diz que o Espírito Santo desceria sobre ela e que para Deus nada era impossível.

Maria, sem hesitar, responde “sim” ao projeto do Pai. “O seu ‘sim’ ecoa forte e sem dúvidas, cheio de generosidade. Disponível a Deus, Maria une a liberdade com a vontade: Eis aqui a servidora do Senhor. Eu quero que se faça em mim segundo a tua palavra (Lc 1,37). Essa entrega do coração a Deus tem um nome muito simples: fé. Significa arriscar-se e jogar-se nas mãos do Senhor com confiança. Na visita a Isabel, esta lhe diz: Feliz aquela que acreditou, pois o que lhe foi dito da parte do Senhor será cumprido (Lc 1,45).

Maria escutou a palavra, acolheu-a no coração. Abriu seu espaço interior, deixou Deus entrar. Saiu de si e investiu sua vida num grande projeto, a que se sentiu chamada. Lucas nos apresenta Maria como a primeira discípula cristã. Com a anunciação, ela inicia um longo caminho de peregrinação na fé, ao responder ao apelo de Deus. Aceita a proposta do Senhor com o coração aberto, num grande gesto de generosidade e de fé”.[2]

Maria medita a Palavra no coração (Lc 2,19.51)

“Por duas vezes, Lucas diz que Maria guarda no coração os acontecimentos e procura descobrir o seu sentido. Na primeira vez, depois do nascimento de Jesus (cf. Lc 2,19). Ela está contente e surpresa, como toda jovem mãe. Deve ter olhado e amamentado seu bebê com carinho. O Menino Jesus está envolvido em panos e deitado no local onde o gado se alimenta. Então eles recebem a visita dos pastores. Quanta coisa para pensar, para meditar, para descobrir o sentido. O que vai ser desse menino, como educá-lo bem, de que maneira amá-lo…

Na segunda vez, o menino está crescido. É adolescente, um rapazinho com seus doze anos. Curioso, cheio de iniciativa, ousado, Jesus se encontra no templo, conversando com os doutores. Ouve e questiona. Já antecipa, com esse gesto, o que vai fazer bem mais tarde. Diz uma frase que Maria e José não compreendem: Vocês não sabiam que devo estar na casa de meu Pai? (Lc 2,46-49). Maria, mesmo sem entender, guarda no coração. Pensa, reflete, medita, procura o sentido. Conserva a lembrança dos fatos. Faz memória (cf. Lc 2,51).

Quando o evangelista põe duas vezes essa mesma atitude, no começo e no fim da ‘vida familiar’ de Jesus, quer dizer que era algo constante em Maria. Ela cultivava um hábito, um jeito de ser. Maria vive um dos traços marcantes da espiritualidade do povo da Bíblia: a memória, a recordação. A Escritura judaica continuamente apela para que, recordando o passado, tenhamos gravado na mente e no coração como Deus fez maravilhas pelo seu povo, escolheu-o e deu-lhe uma missão (cf. Dt 4,32-40).”[3]

Maria dá bons frutos (Lc 1,42-45)

“Lucas conta que, logo depois da anunciação, Maria sai às pressas para visitar sua parenta Isabel. Parte de Nazaré, na Galileia, para a Judeia. Segundo os estudiosos da Bíblia, isso poderia corresponder à distância de no mínimo cinquenta quilômetros. Leia o relato de Lc 1,39-45.

Embora Lucas não tivesse tal intenção, o povo, ao ler o texto da visitação, descobre Maria como missionária. Transbordando da graça de Deus, não quer retê-la para si. Vai partilhar com sua parenta, de idade avançada, que está grávida e necessita de cuidados. Discretamente, ela já leva Jesus para os outros. Isabel sente logo o resultado. O feto se movimenta dentro dela. Quando se saúdam e se abraçam, o Espírito Santo inunda o ambiente e elas transbordam de alegria. Maria está cheia de Deus. Isabel também. Nessas duas mulheres grávidas se encontram, em semente, seus filhos João Batista e Jesus. Já estão, lado a lado, o precursor e o Messias, o que prepara e o que realiza a Boa-Nova, o profeta de Deus e o Filho de Deus.”[4]

“Qual é a principal característica de Maria, segundo Lucas? Ela encarna com fé a Palavra de Deus. Guarda-a no coração e a coloca em prática, dando frutos. Esses são também os traços básicos de todo o discípulo de Jesus. Pela sua fé, Maria é o exemplo do cristão, seguidor e aprendiz do Senhor. Em Maria, a fé se traduz em ser mãe, educadora e discípula de Jesus. Mas sua importância não reside, em primeiro lugar, na maternidade. E sim na fé, compromisso radical e inteiro a Deus e ao seu projeto.”[5]

Vivência

“Como Maria, nós também recebemos um apelo divino. Temos na lembrança alguma ocasião na vida na qual Deus nos tocou de forma especial. Um retiro, um encontro, conhecer uma pessoa, conseguir uma vitória almejada, superar o sofrimento. Situações na qual sentimos que Deus nos comunicou algo novo, original, forte, que mudou para melhor nosso caminho de vida. A anunciação a Maria nos lembra que somos também agraciados por Deus, que ele está conosco, que nos chama a uma missão, e que sua presença produz alegria em nós. A vocação de Maria é como um espelho para a vocação cristã. Olhando para ela, a gente se vê melhor, enquanto discípulo e seguidor de Jesus.”[6]



[1]   Murad, Afonso. Maria, toda de Deus e tão humana. Compêndio de Mariologia. São Paulo: Paulinas/ Aparecida, Santuário, 2012. p. 54.

[2]   Ibid., p. 55.

[3]   Ibid., p. 56-57.

[4]   Ibid., p. 59-60.

[5]   Ibid., p. 61.

[6]   Ibid., p. 55-56.