Viver como batizado e crismado

Antonio Francisco Lelo

A marca sacramental da unção crismal aperfeiçoa o batizado com a plenitude dos dons do Espírito e o robustece, qualificando-o para ser presença de Cristo no mundo. Ser cristão é compartilhar a missão de Jesus de praticar ações que concretizam a presença do Reino entre nós. Este desafio não tem prazo de validade, dura toda a vida e principalmente deve ser compreendido à luz da Eucaristia, como sacramento da Páscoa do Senhor. “A vida do discípulo cristão é sacerdotal, na medida em que ele se entrega ao poder do amor, encarnado na autodoação salvífica de Jesus, e podendo, até mesmo, chegar ao martírio”.[1] A luta do cristão de superar o mal e optar pelo caminho reto o situa diretamente no caminho de Jesus que viveu o mistério de vida e de morte como consequência de sua prática transformadora.

O crismado, plenamente qualificado para o exercício da vida cristã, guia-se pelos critérios das bem-aventuranças, da defesa do órfão, do estrangeiro e da viúva e se opõe a todo tipo de legalismo que escraviza o ser humano. É chamado a discernir o mundo, a saber ler em suas conjunturas e realizações concretas aquilo que pode ser a favor ou contra o projeto de Deus, presente na história para realizar sua vocação integral do ser humano.[2] “O saber ler os sinais dos tempos é uma tarefa educativa fundamental durante toda sua existência cristã, para que a palavra do mundo não absorva, em sua dinâmica, a Palavra de Deus”.[3]

Para o cristão, a história e o tempo foram redimidos pelo Senhor, neles o mesmo Senhor se manifesta; portanto, nossa vida cotidiana é tempo e lugar de optarmos pelo Reino e fazermos de nossa vida: história de nossa salvação. Por isso, como uma fonte, a graça recebida na crisma nos acompanha para optarmos por uma existência honesta e justa diante de Deus e da sociedade. Assim, o cristão aprende a ler os sinais que indicam a presença ou não do Reino e permanece atento para discernir o que se passa a sua volta, especialmente as tendências e o modo de pensar de sua época.

Impulsionada pelas inúmeras tecnologias, a sensibilidade atual libera o ser humano para aventurar-se em novos caminhos de conquistas e de realização pessoal. A sociedade sinaliza favoravelmente para o exercício da convivência democrática: defesa de políticas públicas e do meio ambiente e dos animais, respeito dos direitos individuais e da pluralidade de convicção religiosa, política, social. Daí, tornaram-se coisa do nosso cotidiano as passeatas, os grupos reivindicatórios, os movimentos grevistas… para que se mantenha o diálogo democrático e os direitos sejam respeitados.

Diante da inusitada crise das instituições, resultante da afirmação do valor individual sobre o social, estruturas sociais e concepções tidas como certas até agora são questionadas e rotundamente postas abaixo. Os meios de comunicação escancaram escândalos, revelam planos escusos de autoridades que perdem privilégios, gerando, assim, uma nova percepção da população sobre a coisa pública.

A conquista da felicidade coloca-se no nível da satisfação dos desejos, que acaba identificando estes com a necessidade real do indivíduo. Dessa forma, confunde-se o que é fundamental com aquilo que é supérfluo. Essa mesma sede insaciável dos desejos, diante da urgência de viver bem o hoje, termina por sufocar os sonhos de realização mais duradoura.

Há ainda o desafio de discernir o protagonismo cristão junto às redes virtuais.

As relações interpessoais, estabelecidas pelas redes virtuais, dispensam, por sua própria dinâmica de funcionamento, posturas sociais, éticas e cristãs fundamentais, como a autenticidade das pessoas, o compromisso comunitário, o respeito e a reputação pessoal, a solidariedade com os mais necessitados, o encontro entre pessoas reais.[4]

O cristão valoriza as relações interpessoais e a cultura do encontro pessoal, cuida do outro, evita reduzi-lo a mero objeto e aposta na relação responsável guiada pelo amor, pelo perdão e pelo crescimento de ambos.

Neste panorama, o crismado é chamado a ser uma pessoa de atitudes, a defender valores que assumiu para sua prática cotidiana segundo a sua consciência. O desafio cristão será, sempre, viver no mundo sem ser do mundo, discernir e ficar com o que é bom; construir o tempo presente, na perspectiva do Reino. Daí sua atitude de fé deve ser consistente e se alimentar na experiência de Deus resultante da leitura dos acontecimentos diários à luz da oração individual, da leitura bíblica e de sua frequência na comunidade eclesial, particularmente a missa dominical.

[1]       CNBB. Cristãos leigos e leigas na Igreja e na sociedade. São Paulo: Paulinas, 2016, n. 111. (Documentos da CNBB 108).

[2]       Cf. Id. ib., n. 47.

[3]       Id. ib., n. 49.

[4] Id. ib., n. 59g.