Experiência de cruz e de ressurreição

Podemos considerar o transcurso da vida cristã como o tempo do exercício do discipulado, no qual vivemos da graça inicial do nosso Batismo, quando fomos definitivamente configurados em sua morte e ressurreição. A graça do Batismo e da Confirmação é projetiva e requer de nossa parte a resposta de adesão ao dom da filiação divina com uma vida segundo o coração e os ensinamentos de Jesus. Esta, por sua vez, permanece sempre inacabada, até nosso último respiro.

O seguimento de Jesus será esta resposta construída diariamente, mediante o sim que dizemos nas situações nas quais enxergamos o apelo da vontade do Pai para acolher o Reino e promover a vida em plenitude.

Um grande obstáculo para o seguimento de Jesus é a cruz. Desde o início de seu ministério público Jesus realiza sinais indicando que em sua pessoa o Reino se faz presente. Porém, ele se identifica com o Messias-Servo que se doa livremente e não como era esperado, com o messias político que viria instaurar o poder de Israel sobre o mundo.

Se as atitudes libertadoras que assumiu em seu ministério já provocavam as autoridades religiosas e despertavam o ciúme de Herodes, o não reconhecimento do Messias-Servo e Filho de Deus foi o motivo central de sua condenação.

Em todos os tempos, compreender a sabedoria da cruz ou a sua loucura, como desfecho de uma vida entregue a Jesus, é o maior desafio que o discípulo de Jesus vai se deparar. Amar, mas ao preço de suar sangue, escandaliza quem a princípio se encantou com o chamado e se propôs a viver com ele.

Existe uma consequência imediata e necessária do anúncio da paixão para o discipulado. Já que o Mestre deve ir a Jerusalém para sofrer, então aquele que quiser acompanhá-lo deve negar a si mesmo, tomar sua cruz e segui-lo (cf. Mt 16,24; 10,38-39). Os seus seguidores são convidados a entrar na mesma dinâmica e acompanhá-lo no sofrimento redentor, visando, sem dúvida, participar também de sua glorificação.

A cruz torna-se o crivo da aceitação corajosa de estar em comunhão com ele a ponto de doar a vida, acreditando na vitória, no amor e na Palavra dele. Sem fugir do sofrimento, das contrariedades e, sobretudo, da entrega da própria vida em suas mãos.

Por isso, encontrar-se com o Senhor, mesmo tendo a perseguição e a cruz diante dos olhos, leva a nos sentirmos atraídos por seu amor que não decepciona nem atraiçoa quem dele experimenta. No caminho de Jesus, a cruz é o desenlace do seu amor sem precedentes, levado até o fim (cf. Jo 13,1).