A imagem de Nossa Senhora da Conceição Aparecida[1] –

A devoção dos brasileiros a Maria com o título de Aparecida tem sua origem na descoberta da pequena imagem de Nossa Senhora da Conceição, nas águas do Rio Paraíba, em outubro de 1717.

Dom Pedro de Almeida e Portugal, Conde de Assumar, Governador da Província de São Paulo e Minas Gerais, passaria pela Vila de Guaratinguetá com destino a Vila Rica, hoje Cidade de Ouro Preto. A Câmara de Guaratinguetá determinara aos pescadores que se responsabilizassem pela pesca para o banquete a ser oferecido ao ilustre viajante.

Os pescadores Domingos Garcia, João Alves e Felipe Pedroso foram à procura de pescado no rio Paraíba. Embora tenham descido o rio, nada conseguiram. Após muitas tentativas sem sucesso, chegaram ao Porto Itaguaçu.

Tendo recolhido as redes, João Alves percebeu que havia apanhado alguma coisa. Surpresa para os três pescadores. Tratava-se do corpo de uma pequena imagem de barro cozido, sem cabeça. Lançando as redes um pouco mais abaixo, João Alves recolhe a cabeça da imagem, identificada, pela lua debaixo dos pés: é a efígie de Nossa Senhora da Conceição. A partir desse momento, a pesca foi abundante.

Da surpresa passaram à emoção, pois a descoberta da imagem, seguida de abundância de peixes, lhes sugeriu um fato milagroso. A imagem, pesando dois quilos e meio, não poderia ter sido retirada das águas com tanta facilidade, estando enterrada no lodo e no fundo do rio. Como poderia a cabeça, com peso absolutamente inferior, ter-se mantido tão próxima do corpo, sem ter sido levada para longe pela correnteza? Como poderia ter sido encontrada logo a seguir? Se não houvesse o testemunho unânime dos três e o testemunho da imagem, pareceria história de pescador. Chamaram-na com propriedade: Nossa Senhora da Conceição Aparecida.

A imagem ficou com a família de Felipe Pedroso, que a levou para casa. A família construiu um oratório, e as pessoas da vizinhança se reuniam em torno da imagem aparecida para rezar. Certa vez, duas velas se apagaram por si próprias durante a recitação do terço. No dia seguinte, Silvana da Rocha quis acendê-las. Porém, elas se acenderam por si mesmas. A partir desse sinal das velas, a imagem deixou de pertencer à família de Felipe Pedroso. Tornou-se propriedade de todos os devotos brasileiros, que começaram a acorrer, para visitá-la, cada vez em maior número.

Diante do afluxo dos fiéis, o vigário de Guaratinguetá construiu uma capela no alto do Morro dos Coqueiros, inaugurada no dia 26 de julho de 1745. Em 1834, foi iniciada a construção da atual Basílica Velha, que também se tornou pequena. Para acolher os milhares de peregrinos, foi necessário edificar a Basílica Nova, cuja construção teve início em 11 de novembro de 1955. São tantos os romeiros, que a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil declarou, em 1984, a Basílica como Santuário Nacional. Há algum tempo ela ostenta o título de maior Santuário Mariano do Mundo, não só em tamanho, mas também em número de romeiros. Todo dia 12 de outubro, durante as solenidades da Padroeira, o Santuário recebe cerca de cem mil peregrinos do imenso Brasil.

A imagem durante anos ficou exposta ao picumã das chamas de velas e dos candeeiros, que a escureceram. Daí, a cor de canela que a bronzeia. No entanto, sua negritude foi notada e acentuada por outras razões. Era o tempo da escravidão negra no Brasil. Conta-se que um dos primeiros milagres atribuídos à invocação da Aparecida foi as correntes que se soltaram das mãos de um escravo, amarrado no tronco, quando lhe pedia socorro: “Valei-me, Nossa Senhora Aparecida!”. O Padre Claro Francisco de Vasconcelos mencionou tal prodígio pela primeira vez em 1828. O povo fez logo a relação entre a cor da imagem e a situação do negro brasileiro. Então, Maria se tornou Nossa Senhora do Brasil de todas as raças e procedências, a Mãe Negra e a Virgem Morena de todos.

A princesa Isabel, que assinou a Lei Áurea abolindo a escravatura no Brasil, e por isso ganhou do Papa Leão XIII a rosa de ouro, ofereceu uma coroa de ouro e o manto azul-marinho, em 1884. Após a queda da monarquia, em 1889, e a proclamação de Nossa Senhora da Conceição Aparecida como Rainha do Brasil e sua Padroeira Oficial, por determinação do Papa Pio XI, a realeza e a coroa de fato passaram, na simbologia popular, para Maria.

É claro o sentido de unidade nacional católica e de união social entre as diferenças para as quais o simbolismo da imagem aponta. Aparece quebrada e sem a cabeça em tempo que a Nação se dividia entre escravos e livres, negros, mestiços e brancos, nobres e plebeus, a injusta divisão entre a classe governante com os detentores de bens e a massa da população simples e carente, em parte iletrada e sempre à margem das decisões. A cabeça precisava se unir ao corpo! Mesmo a Proclamação da República foi um ato autoritário, vindo de cima, sem a participação popular. Os republicanos não conseguiram até hoje superar a desigualdade social, que gera a exclusão de tantos brasileiros.

Durante o Regime de Exceção, no divórcio entre a Nação e o Governo, em que a frágil paz social se firmava na ideologia da segurança nacional contra a subversão dos comunistas e a reivindicação dos democratas pelas liberdades, em meio à censura e à tortura, até setores da própria Igreja se desuniram. Havia brasileiros presos e exilados por razões políticas. Não sem razão, um homem desvairado apanhou a imagem e a jogou no chão para espatifá-la. Pela insanidade dele, a Mãe Rainha chama seus filhos à reflexão. Qual o verdadeiro sentido da imagem a ser reconstituída?

A Nação se comoveu. À semelhança da Pátria, a imagem se quebrara. Era preciso repará-la. Sobretudo, era necessário reconstruir a imagem real da Pátria como nossa mãe gentil. Coube à artista plástica Maria Helena Chartuni, com sua sensibilidade feminina e sua competência profissional, reconstituir a imagem, que depois foi entregue novamente à veneração dos filhos de Maria, irmãos de Jesus, para a alegria de todos. Cabe ao povo brasileiro construir a própria cidadania na verdade e na justiça, e às autoridades cuidar do bem comum. A construção da Nação é obra dinâmica. Está sempre se fazendo e sempre por fazer.

A imagem tem estilo, embora seja simples e frágil. É de argila. Os lábios sorriem. O queixo é encastoado. Possui uma covinha no centro. Os cabelos estão penteados. Um broche com três pérolas enfeita-lhe a testa. O porte é empinado para trás. O manto azul-marinho, bordado com as bandeiras do Brasil e do Vaticano, e a nova coroa de ouro lhe dão o toque de elegância que faltava. Ela é singela e graciosa. Repleta de poesia. De fato, recorda-nos o Cântico dos Cânticos: “Sou morena, mas formosa” (Cântico 1,5); “Não olheis eu ser morena, foi o sol que me queimou” (Cântico 1,6). “Como és bela, a minha amada, como és bela!” (Cântico 1,15): quem em resposta não diria?

A beleza de Maria resplandece no título de Conceição, a Imaculada, e na saudação: cheia de graça. Brilha tanta formosura por suas virtudes humanas e evangélicas. A beleza é também sua bondade para com aqueles que a ela recorrem em suas necessidades. A beleza é igualmente sua ternura que consola os aflitos e recebe os pecadores. A beleza tem algo de especial, bem ao gosto do brasileiro: ele se sente em Aparecida na casa da Mãe com toda a familiaridade. Quem sai de sua própria casa em romaria diz sempre que vai visitar Nossa Senhora e trás de volta consigo uma lembrançinha.

Em Aparecida, Maria se torna Estrela da Evangelização, porque toda a atividade dos Padres Redentoristas é voltada para o anúncio da Palavra e a celebração da Eucaristia, a oferta do perdão sacramental e a catequese sobre o sentido verdadeiro da Igreja reunida: assembleia do Povo de Deus, comunhão do Corpo de Cristo e edificação do templo do Espírito Santo.



[1] Homem, Edson de Castro. Maria da nossa fé. São Paulo: Paulinas, 2007, p.98-102.