“Jesus amigo” e os desafios para a catequese –

A experiência da amizade se inscreve no coração da humanidade, e a catequese, sobretudo juvenil, não pode deixar de lado este sentimento profundo de Jesus. Puebla já havia indicado sua importância afirmando: “O jovem deve experimentar Cristo como amigo pessoal que nunca falha, caminho de total realização”.[1] Com o esquema “Jesus amigo”, os autores dos manuais de Confirmação fazem a proposta de um método e um itinerário para tal experiência. A condição juvenil se torna, assim, um lugar teológico, no sentido de que é necessário conhecer sua realidade e deixá-la falar para descobrir seus apelos.

Da amizade à Igreja de Jesus

A adolescência é o período da amizade, da abertura aos outros e ao mundo. A catequese tem um papel importante para que a fé em Jesus permita fazer a experiência de uma afeição verdadeira e profunda. Se a fé acompanha o desenvolvimento da personalidade, é preciso admitir que também a amizade por Jesus tenha seu desenvolvimento na afetividade.

A amizade é ligada ao mundo subjetivo da pessoa, com suas experiências de felicidade, desejos, sonhos, realizações e frustrações. É nesse amálgama que se chega progressivamente à maturidade afetiva que possibilita a passagem da “utilização” ou da “consumação” da amizade a uma generosa, recíproca e alegre doação. Esta educação da amizade permite chegar à acolhida do outro na liberdade, sem segundas intenções, numa oblação cujo modelo mais perfeito é o próprio Cristo: “Não existe maior amor do que dar a vida pelos amigos” (cf. Jo 15,13). É o amor-caridade que mergulha o batizado no Cristo e lhe oferece a experiência de uma fruição plena. Mas nesse processo de maturação a amizade deve abrir-se necessariamente aos outros, sobretudo aos que, pelo Batismo, formam o Corpo do próprio Cristo, pois uma amizade com o Cristo que não é uma experiência de caridade eclesial seria ainda uma amizade egoísta. Ora, o que torna possível esta passagem é a comunicação do Espírito de Cristo – nota-se a importância deste tema tratando-se de catequese de Confirmação –, pois o Espírito é abertura, expansão para a edificação da comunidade, o Corpo de Cristo, lugar privilegiado da experiência de Jesus e de sua amizade.

Jesus chamou os discípulos para formar uma comunidade. Essa maneira de agir de Jesus responde ao plano de Deus, que forma na história um povo que seja semente e fermento do Reino. Preparada por Jesus e nascida do Espírito, a Igreja é a comunidade que mantém viva a memória de Jesus no tempo – ela é o seu Corpo visível na história. A eleição de Jesus continua na Igreja, onde Jesus continua a chamar: a comunicação do seu Espírito e dos carismas é prova disso. A incorporação ao Cristo passa pela incorporação à Igreja, na dupla dimensão horizontal e vertical: comunhão com Deus e com os irmãos. Segundo o próprio Jesus, seus amigos serão reconhecidos pelo amor recíproco que mostra que eles são unidos entre eles como Jesus é unido ao Pai (Jo 13,53; 17,21). Esta comunhão é concreta e implica uma unidade real em diversos níveis.

Primeiro, naquilo que somos. Não somos Igreja simplesmente porque fazemos parte de um grupo social, que se constitui a partir de certos ritos, mas porque somos introduzidos por estes ritos no Cristo e, por ele, na comunhão interpessoal da Trindade. Não somos cristãos somente porque o Batismo nos liga ao Cristo, mas também porque somos inseridos em seu corpo eclesial, o povo dos salvos, sua extensão na história. Bonhoeffer dizia que a Igreja é Jesus em forma de comunidade. Pelo Batismo e a consequente inserção no Cristo, passamos a fazer parte deste Corpo onde o “eu” e o “tu” se tornam “nós”.

Segundo, porque esta amizade implica uma unidade naquilo que temos pela partilha que mantém a autenticidade desta comunhão interpessoal. Os Atos dos Apóstolos dão testemunho desta dimensão de comunhão como uma das características das primeiras comunidades cristãs (At 2,42-45; 4,32-35; 5,12-16), que deve ser um paradigma para a Igreja de sempre.

Terceiro, porque esta amizade implica uma unidade naquilo que fazemos pelo conjunto de ações de salvação e libertação orientadas pelo princípio da comunhão, que integra os carismas particulares com os carismas do corpo todo.

Finalmente, a amizade implica uma unidade no objetivo, quer dizer no Reino, que é a realização definitiva da amizade com Deus e com a humanidade toda. A amizade fraterna, vivida na Igreja, se torna assim uma antecipação e uma pré-gustação desta comunhão definitiva à qual somos chamados.

FRISULLO, Vicente. As imagens de Jesus. Leitura a partir dos manuais de Confirmação do Brasil. São Paulo: Paulinas, 2012, pp. 29-31.


[1] Puebla, n. 1183.