Método mistagógico

Este método nos conduz à participação no coração do mistério, isto é, faz que sejamos transformados no mistério que celebramos, pois recebemos a graça transformadora da vida de Deus em nós.

O significado do símbolo vai se concretizando passo a passo, daquilo que ele mostra aos nossos olhos e sentidos até chegar ao seu sentido final, que só alcançamos com a fé. Por isso, partimos do sentido corriqueiro e cotidiano de cada sinal. Por exemplo: para falar do Batismo, inicialmente tratamos do uso da água.

A água é ambivalente, simboliza a morte e a vida. A mesma água que é fonte de vida também tem um poder destruidor natural nas tempestades e enchentes, e sua falta ocasiona os desertos e as secas. As águas desfazem todas as formas, dissolvem a vida e possibilitam, assim, a nova criação. A criança é formada no ventre materno banhada pelo líquido amniótico e nasce quando se rompem as águas.

Depois de um dia de trabalho, o banho lava e limpa o corpo e renova o espírito, dando boa disposição.

A encíclica O sacramento da caridade[1] aponta as três etapas características deste método, no qual continuaremos aprofundando o simbolismo do Batismo, com a bênção da água:

a)       Trata-se, primeiramente, da interpretação dos ritos à luz dos acontecimentos salvíficos. Desde o seu início, a comunidade cristã leu os acontecimentos da vida de Jesus, e particularmente o mistério pascal, em relação com todo o percurso do Antigo Testamento.

Junto à fonte batismal, o celebrante bendiz a Deus, recordando o admirável plano segundo o qual Deus quis santificar o homem, pela água e pelo Espírito. A oração utiliza as imagens do ciclo do Gênesis 1,2.6-10; 1,21-22 (criação, dilúvio) e do Êxodo 14,15-22 (libertação da escravidão, passagem do Mar Vermelho). Todas essas imagens são figuras que anunciam uma realidade e uma verdade somente revelada e realizada em Cristo, verdadeiro Adão que nos livra do pecado; novo Noé que, pelas águas batismais, nos salva do naufrágio; esperado Moisés que nos liberta por uma nova Páscoa. Jesus confere novo valor salvífico à água: no seu Batismo no Jordão (cf. Mateus 3,13-17), com Nicodemos (cf. João 3,1-15) ou com a Samaritana (cf. João 4,1-42) e, principalmente, no alto da cruz, quando seu coração é transpassado (cf. João 19,34).

b)      Há de preocupar-se com a introdução no sentido dos sinaiscontidos nos ritos. Essa tarefa é urgente numa época acentuadamente tecnológica como a atual, que corre o risco de perder a capacidade de perceber os sinais e os símbolos. Mais do que informar, a catequese mistagógica deverá despertar e educar a sensibilidade dos fiéis para a linguagem dos sinais e dos gestos que, unidos à palavra, constituem o rito.

A bênção da água batismal nos coloca em continuidade histórico-salvífica com os mesmos grandes acontecimentos bíblicos; por isso, invoca o poder do Espírito sobre a fonte batismal para que o candidato, ao ser coberto pelas águas, participe de todos esses mistérios salvíficos e tenha sua vida transformada por eles. A palavra “Batismo”, em sua raiz grega, significa “imergir na água”. Este é o principal efeito do Batismo: participar da Páscoa de Cristo e ser enxertado nela; uma vez que aquele que é batizado desaparece na água, sofre uma morte semelhante à de Cristo, ressuscita para a vida e recebe a graça da imortalidade. É um novo nascimento! O sinal de imergir por três vezes recorda em nome de quem somos adquiridos como filhos, participantes da trinitária família divina.

c)       Mostrar o significado dos ritos para a vida cristã em todas as suas dimensões: trabalho e compromisso, pensamentos e afetos, atividade e repouso. Deve-se ligar os mistérios da vida de Cristo celebrados no rito com a responsabilidade missionária dos fiéis; nesse sentido, o fruto maduro da mistagogia é a consciência de que a própria vida vai sendo progressivamente transformada pelos mistérios celebrados.

Ao sermos mergulhados na água da vida do Batismo, Deus coloca em nós a fé, a esperança e o amor, para sermos capazes de viver de acordo com seu projeto. O cristão passou das trevas à luz, passou a fazer parte da comunidade dos santos na luz. Entra aqui toda a perspectiva da vida cristã como luta contra toda situação de pecado. O fato de o ser humano estar centrado em Cristo não o impede de viver também situado no mundo. A vida nova na graça, recebida no Batismo, não suprimiu a fraqueza da natureza humana nem a inclinação ao pecado.

Esses passos para a compreensão da água alargam sua simbologia para além do mero elemento químico H2O. Fazem-nos enxergá-la como portadora da salvação de Deus para a comunidade, e os compromissos que nascem desse diálogo de graça.

Por isso, recomenda-se que ao longo dos encontros catequéticos sejam apresentados pequenos exercícios com experiências, símbolos e celebrações, para propiciar uma educação litúrgica que capacite o catequizando a interiorizar os principais gestos da liturgia (cf. Documento de Aparecida, n. 290). O sentido profundo deles coloca o fiel em contato direto com o mistério de fé celebrado. “Os sinais litúrgicos são ao mesmo tempo anúncio, lembrança, promessa, pedido e realização, mas só por meio da palavra evangelizadora e catequética esses seus significados tornam-se claros” (Diretório Nacional de Catequese, n. 120).

Vale a pena voltarmos a uma catequese que privilegie o uso de símbolos como são celebrados no culto litúrgico. Uma catequese que, pouco a pouco, revele a linguagem dos ritos, símbolos, gestos e posturas utilizados na celebração.

[1]   Bento XVI. Exortação apostólica pós-sinodalSacramentum Caritatis, sobre a Eucaristia, fonte e ápice da vida e da missão da Igreja. São Paulo, Paulinas, 2007. n. 64.