Sejamos explícitos em anunciar o acontecimento atual de graça que nos alcança por meio do anúncio da pessoa, da missão e da salvação em Jesus Cristo. Que fique claro que somos herdeiros dessa promessa de graça e temos a mesma atitude de fé daqueles que a escutaram pela primeira vez.

Todas as vezes que proclamamos um texto da Sagrada Escritura, fazemos ecoar no tempo a ação salvadora de Deus. A fé é alimentada pela descoberta e pela memória do Deus sempre fiel, que guia a história e que é o fundamento seguro e estável sobre o qual construir a própria vida. Os judeus chamam isso de memorial, uma palavra que possui o grande significado de fazer referência ao passado, envolver o presente mediante o compromisso da celebração, da conversão, da fé, do louvor. A memória bíblica abraça todo o conjunto de acontecimentos do passado em que se encontram comprometidos Deus e o povo. Ambos se fazem presentes renovando essa relação e projetando esse acontecimento para o futuro.[1]

O que Jesus anuncia? O que ele é enquanto Filho de Deus e o que ele produz de transformação definitiva na história humana torna-se a Boa-Nova da qual é portador. Por isso, sua missão é anunciar indistintamente a todos essa nova realidade instaurada: “o Reino de Deus chegou”. Oferecida pessoal e gratuitamente, a Boa-Nova constitui o maior tesouro que guardamos, o qual nem a morte é capaz de roubá-lo, ao contrário, é o passaporte para vencermos o mal e alcançarmos a eternidade da plena comunhão com o Senhor.

Jesus na sinagoga de Nazaré, ao proclamar a profecia de Isaías 61,1; 29,18, diz claramente o que implica o anúncio da Boa-Nova: “O Espírito do Senhor está sobre mim, pois ele me ungiu, para anunciar a Boa-Nova aos pobres: enviou-me para proclamar a libertação aos presos e, aos cegos, a recuperação da vista; pra dar liberdade aos oprimidos e proclamar um ano aceito da parte do Senhor” (Lc 4,18-19). A Boa-Nova é, justamente, essa série de ações que a tornam um acontecimento de graça na vida de quem a abraça. A plenitude humana requer a superação de toda cegueira e prisão que tolhem a liberdade e a capacidade de nos realizarmos com autonomia e dignidade.

Jesus, herdeiro dessa tradição, proclamou várias vezes que nele se cumpriam as promessas de Deus: “Hoje se cumpriu esta passagem da Escritura que acabastes de ouvir” (Lc 4,21). Igualmente seus milagres, exorcismos e bênçãos demonstram sua origem divina e a instauração de uma nova ordem, pois o Reino de Deus já chegou entre nós (cf. Mc 1,14).

A Palavra age, converte e produz o que promete. Essa eficácia, própria dela, nos autoriza a pregar sem medo de exageros, porque é ela quem age, sem depender diretamente de nossa santidade. Claro que nosso testemunho confere credibilidade às nossas palavras. Mas, em primeiro lugar, a eficácia é da Palavra.

[1]   Cf. LATORRE, Jordi. Modelos bíblicos de oração: herança do Antigo Testamento na Liturgia. São Paulo: Paulinas, 2011. p. 69.