O sacramento da Confirmação

Antonio Francisco Lelo

Ao aproximamo-nos da celebração, muitas vezes nos preocupamos mais em celebrar os ritos sem cometer erros do que entender e assumir de coração o que está se passando. Afinal, seguimos a pauta cerimonial e acreditamos que tudo aquilo ali é bom.

Esta atitude não basta para fazermos da celebração sacramental o cume do caminho percorrido durante a catequese. Sobretudo, vamos nos aproximar com uma profunda atitude de fé, pois Deus Trindade irá se manifestar em nossa vida e indicar-nos o rumo a seguir. Afinal, não viemos a este mundo para passar férias, temos uma missão que é dada para cada um cumprir.

Na celebração da crisma, o anúncio recebido se transforma em graça eficaz diretamente comunicada a mim. A conversão ocorrida pouco a pouco durante o processo catequético foi moldando os termos da aliança que estabelecemos com Deus num diálogo aberto, consciente e livre. Chegou a hora de selarmos este pacto, Deus não volta atrás em sua Palavra, por isso a graça concedida no sacramento nos transforma definitivamente.

Rito da confirmação

O rito é o lugar da comunicação do Espírito Santo. Nele, a Igreja condensa a sabedoria de sua Tradição. Revelar o sentido de suas palavras, gestos e símbolos é preponderante para fazermos a experiência do Espírito e sermos transformados por estes sinais.

A proposta ritual da confirmação desenvolve-se em quatro sequências: a renovação das promessas do Batismo, a imposição das mãos, a crismação e a prece dos fiéis.

Fé batismal

A Igreja apresenta os efeitos da crisma na linha do crescimento e do reforço daquilo que já foi realizado pelo Batismo. Após o renascimento nas águas do Batismo, nas quais o eleito foi configurado em Cristo, isto é, tornou-se uma coisa só com ele por uma morte semelhante a dele (cf. Rm 5,6). Continua-se o caminho de iniciação cristã, agora, com o renascimento pelo Espírito, isto é, a pessoa batizada recebe o Espírito Santo. Assim, como o Batismo configura a pessoa ao Cristo morto e ressuscitado, a Confirmação o configura ao Cristo ungido pelo Espírito Santo.

Santo Tomás relembra a tradicional analogia entre a vida divina comunicada pelos sacramentos e a vida natural. O nascimento, o crescimento e a alimentação correspondem no organismo sacramental ao Batismo, à Confirmação e à Eucaristia. A tradição oriental vê no Batismo o sacramento do nascimento espiritual, enquanto na Confirmação o do progresso espiritual.

O primeiro momento do rito da confirmação tem a finalidade de criar esta explícita ligação com o Batismo, e o que se dá não é tanto a renovação de uma promessa, mas sim uma profissão de fé, ainda mais radical: “Crede no Espírito Santo, Senhor e fonte de vida, que hoje, pelo sacramento da Confirmação, vos é dado de modo especial, como aos Apóstolos no dia de Pentecostes?” (Ritual da Confirmação, n. 23).

A medida prática de recomendar que o padrinho da Confirmação seja o mesmo do Batismo sinaliza melhor o nexo entre Confirmação e Batismo, bem como a eficácia e o relevo de sua tarefa.

Imposição das mãos

Dá-se grande relevo à imposição geral das mãos, que precede a crismação, e à oração que a acompanha. Tal imposição das mãos “serve para integrar maiormente o mesmo rito e a favorecer uma maior compreensão do sacramento” (Ritual da Confirmação, n. 9). A imposição das mãos é um gesto que na Bíblia retorna várias vezes com significados diversos.

No nosso caso, o seu sentido é esclarecido pela oração de invocação do Espírito Santo que a acompanha; após ter recordado a ação regenerativa do Espírito no Batismo, a oração invoca a efusão do Paráclito, com a plenitude dos seus dons, explicitados na linha do clássico septenário, inspirado em Isaías 11,2. O texto de Santo Ambrósio precisa o que falta após o Batismo:

Segue-se então o selo espiritual, de que ouvistes falar hoje durante a leitura. É que falta ainda o aperfeiçoamento, após a descida à fonte. Dá-se ele na hora em que se infunde o Espírito Santo, quando o Bispo invoca o espírito da sabedoria e inteligência, o espírito do conselho e da força, o espírito do conhecimento e da piedade, o espírito do santo temor que são como que as sete virtudes do Espírito.[1]

Chegamos, pois, ao próprio objetivo da Confirmação. Este não se trata da doação do Espírito Santo, já concedido no Batismo. Mas é uma nova efusão do Espírito. Uma efusão que tem por finalidade conduzir à perfeição as energias espirituais suscitadas na pessoa pelo Batismo. Nos dons do Espírito Santo, encontramos a marca da alma perfeita, aquela que não é mais conduzida pelas virtudes ordinárias, mas diretamente pelo Espírito Santo por meio de dons que a fazem dócil à sua ação.

Por sua vez, a fórmula sacramental da Confirmação afirma que se recebe “o Espírito Santo, o Dom de Deus”. Com a palavra “dom”, não se entendem, em primeiro lugar, os dons que provêm do Espírito Santo, mas o Espírito Santo, que é, ele próprio, o dom do qual provêm os outros dons: da sabedoria, do conselho, da fortaleza… Os frutos desse dom do Espírito são individuados na mais perfeita conformação a Cristo e na comunicação da força necessária para o testemunho em vista da edificação da Igreja.

Crismação

Após ter confessado a fé batismal e ter recebido a imposição das mãos com a invocação dos dons do Espírito Santo, confere-se o sacramento da Confirmação mediante a unção com o crisma sobre a fronte e a fórmula citada.

Unção com óleo perfumado

“No Antigo Testamento, a unção era o rito pelo qual os sacerdotes e os reis eram consagrados. Ela constituía um sacramento pelo qual o Espírito Santo lhes era comunicado em vista das funções que deveriam realizar. Nos profetas, encontramos uma primeira figura que é, literalmente, o messianismo. Eles anunciam, com efeito, que no final dos tempos virá o Ungido, um Messias, um Christos, do qual o rei davídico e o sumo sacerdote eram somente figuras. Essa visão messiânica ocupa um grande espaço nos Salmos.

Esse anúncio realiza-se em Jesus de Nazaré. O mesmo nome de Christos (messias, ungido), dado a Jesus, é a expressão de sua missão. Esse título é expressamente aceito por ele diante de Pilatos (Mt 27,12). De outro lado, Cristo atribui a si próprio a profecia de Isaías (Mt 11,1), descrevendo a efusão do Espírito Santo sobre o Messias que deveria vir (Lc 4,18).[2] Os Atos dos Apóstolos lhe aplicam os textos dos Salmos.[3] E, seguindo a linha da liturgia, o que é dito de Cristo é igualmente verdadeiro para o cristão”.[4] O óleo é o crisma pelo qual o batizado torna-se um novo cristo, um cristão.

Prefigurada pela unção sacerdotal e real do Antigo Testamento, a unção cristã é mais ainda participação à de Jesus Cristo. Após ter dedicado suas duas primeiras catequeses ao Batismo, Cirilo de Jerusalém estuda a confirmação na terceira. “Tornados participantes no Cristo, a bom direito sois chamados Cristos. Ora, fostes feitos Cristos quando recebestes o sacramento do Espírito Santo. E todas essas coisas foram realizadas simbolicamente, pois sois imagens de Cristo. Ora, o Cristo, tendo se lavado no Jordão e tendo comunicado às águas o perfume de sua divindade, saiu do Jordão e o Espírito Santo desceu pessoalmente sobre ele, o semelhante pousando sobre o semelhante. Igualmente vós, quando saístes da piscina das águas sagradas, haveis recebido a unção, sacramento daquela que já ungira o Cristo, quero vos dizer, o Espírito Santo…”[5] Assim, a Confirmação é uma participação na unção de Cristo pelo Espírito após seu Batismo.

A cruz é traçada com o óleo perfumado. O bálsamo mesclado com o óleo dá um odor agradável e penetrante: conota alegria, beleza, bom nome e sinal de vitalidade. Representa também a bênção, a proteção, e a escolha de Deus sobre a pessoa que é ungida e a sua participação na missão de Jesus. O perfume que constitui o essencial do símbolo. O perfume recorda a habilitação do crismando para difundir ao seu redor o bom odor de Cristo. Isso aparece claramente na prece que acompanha a unção da confirmação na liturgia siríaca: “Após ter batizado em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, é que o bispo realiza a unção com o crisma, dizendo: ‘Senhor Deus, que espalhaste o suave odor do Evangelho em todas as nações, faze agora também que este óleo perfumado seja eficaz no batizado, a fim de que, por ele, o bom odor de Cristo permaneça firme e sólido nele’”.[6]

Sinal, selo e caráter

No gesto de ungir a fronte encontramos o efeito que a crisma produz. A fórmula inicia: “Nome, Recebe, por este sinal” (em latim, signaculum; em grego, sphragis). O sinal da cruz traçado na fronte com o óleo santo da crisma produz uma marca inapagável. A pessoa batizada, sobre a qual o bispo estende a mão para traçar-lhe na fronte o sinal da cruz com o óleo perfumado, recebe um caráter definitivo, selo do Senhor, e ao mesmo tempo o dom do Espírito, que o configura mais perfeitamente a Cristo e lhe dá a graça de expandir entre as pessoas o “bom odor” (cf. Ritual da Confirmação, n. 9). Por este caráter, a pessoa fica mais perfeitamente unida à Igreja.

Os antigos também chamavam este sinal de selo,[7] pois constituía a marca com a qual um proprietário marcava os objetos que lhe pertenciam. Tal marca vamos encontrá-la no sinal produzido pelo ferro em brasa nas ovelhas, a fim do pastor distinguir aquelas do seu rebanho. Ao mesmo tempo, funcionava como sinal de posse e de proteção. De outro lado havia o uso no exército romano de marcar os recrutas no momento de sua arregimentação. O sinal consistia numa tatuagem que se fazia na mão ou no antebraço que representava uma abreviação do nome geral. Referindo-se ao sinal produzido pelo Batismo e pelo óleo crismal, diz Teodoro de Mopsuéstia: “Esta consignação com a qual és assinalado agora, é o sinal com que te tornaste então ovelha de Cristo. Com efeito, uma ovelha de sua aquisição recebe a marca pela qual se reconhece a qual mestre ela pertence; assim ela pasta na mesma pastagem e ela está no mesmo abrigo onde ficam as que foram assinaladas com a mesma marca, indicando que elas pertencem ao mesmo mestre”.[8]

Já no Antigo Testamento, encontramos em Ezequiel 9,4: “o Senhor lhe disse: ‘Passa no meio da cidade, no meio de Jerusalém, e marca com um tau na testa os homens que gemem e suspiram por tantas abominações que nela se praticam’”. Esta marca de Deus é colocada na fronte dos membros do Israel futuro. Por sua vez, o Novo Testamento mostra as marcas do sinal do cordeiro no Apocalipse 7,4: “Ouvi então o número dos que tinham sido marcados: eram cento e quarenta e quatro mil, de todas as tribos dos filhos de Israel”. Este sinal é, muito provavelmente, o sinal da cruz, isto é, o T. Se considerarmos que o Apocalipse está cheio de reminiscências batismais.[9]

Prece dos fiéis

Por fim, a prece dos fiéis relembra os efeitos principais do sacramento, invocando a plena correspondência a ele por parte das pessoas que o receberam.

As quatro partes elencadas que formam o rito da Confirmação apresentam uma proposta coerente com a continuidade da história da salvação, que se dá hoje cada vez que fazemos memória da ação histórica de Jesus na força do Espírito Santo. Os elementos: confissão da fé batismal, imposição das mãos com a invocação dos dons do Espírito Santo e a assinalação da cruz com óleo perfumado, colocam-nos em contato direto com o acontecimento de salvação e requerem, somente, nossa conversão de fé para sermos transformados nele.

Em cada crisma, o confirmando se associa a Jesus no seu Batismo e é ungido pelo Espírito Santo como filho amado do Pai, pronto para compartilhar a sua missão de realizar a vontade do Pai.

[1]       Os sacramentos, 3,8; AMBRÓSIO DE MILÃO. Os sacramentos e os mistérios. Introdução, tradução e notas de D. Paulo Evaristo ARNS. Comentários de Geraldo Majella Agnelo. Petrópolis: Vozes, 1981. (Fontes da catequese, 5).

[2]       Este pode ser, também, o sentido da unção de Jesus em Betânia como Messias (Jo 12,1-3) que precede a entrada messiânica em Jerusalém (Jo 12,19).

[3]       Sl 2,2.7; 110,1. Todo o Saltério é um livro profético realizado pelo acontecimento de Cristo.

[4]       DANIÉLOU, Jean. Bíblia e liturgia: a teologia bíblica dos sacramentos e das festas nos Padres da Igreja. São Paulo: Paulinas 2013, pp. 135-136.

[5]       SÃO CIRILO DE JERUSALÉM. Catequeses mistagógicas. Tradução de Frederico Vier. Petrópolis: Vozes, 2004, p. 37-38.

[6]       Didascalia et Constitutiones Apostolorum. VII, 6, 2.

[7]       Cf. São Cipriano: “Os novos batizados devem permanecer diante dos chefes da Igreja, para receber o Espírito Santo pela invocação e a imposição das mãos e ser aperfeiçoados pelo selo (signaculum) do Senhor” (CYPRIANUS. Epistula. 73, 9).

[8]       THEODORE DE MOPSUESTE, Les homélies XIII, 17.

[9] Cf. DANIELOU, Jean. Bíblia e liturgia, p. 85.