Crisma: o sacramento da maturidade cristã

Abadias Aparecida Pereira[1]

Que ser humano sou eu?

– Que não acredita que sobreviveremos muito mais neste mundo. (14 anos)

– Que perdeu a confiança em si mesmo, desapontado com seus atos. (15 anos)

– Que acredita que tudo um dia pode mudar, basta acreditar! (14 anos)

– Sou uma pessoa que erra. Eu não sou nada! (14 anos)

– Sou um ser humano que ainda acredita que haverá paz. (14 anos)

– Sou insegura, preguiçosa, incompreendida e muito tímida. (13 anos e 8 meses)

– Sou sádico, hiperativo, chocólatra, questionador, racionalista, sem expectativas, sem fé na humanidade e manipulador. (14 anos)

– Tenho 14 anos. Sou alegre, não aceito desaforos, gosto de fazer as coisas do meu jeito, só respeito quem me respeita independente de quem seja. Sou legal! Só não mexa comigo.

– Eu sou dedicada, tento dar orgulho para os meus pais, mas não consigo. Minha mãe não gosta de mim, queria que ela gostasse. (14 anos)

– Sou feliz e desejo o bem a todos! (15 anos)

Catequista, que respostas, à luz da fé, você daria a partir do relato destes adolescentes?

A professora de Ética destes alunos estava bem apreensiva. Eles estavam “certinhos” demais durante as aulas, durante os debates e nas respostas dos exercícios, tanto os propostos em sala quanto os enviados para casa.

Na aula seguinte, trouxe uma caixa com folhas e a colocou sobre a mesa. Ela solicitou que cada aluno fosse até a caixa, retirasse uma folha e respondesse à questão “Que ser humano sou eu?”, sem necessidade de identificação.

A princípio, ficaram desconfiados, murmurando inquietos, se entreolharam e por fim ficaram quietos, pensativos, debruçados sobre a questão que está no início deste texto: Que ser humano sou eu?

Depois de todos terem respondido, depositaram suas folhas na caixa.

A professora ficou pensativa tanto quanto vocês durante a leitura das respostas. Após o término, ela já sabia o que fazer!

E nós, catequistas, saberíamos o que fazer?

Afinal, estes adolescentes estão nas escolas e também nas catequeses de nossas comunidades.

Vivemos em um tempo de grandes transformações sociais, econômicas, políticas e técnicas que afetam a nossa vida diariamente. É uma “mudança de época”. Trata-se de um tempo carregado de potencialidades positivas do ser humano, mas, ao mesmo tempo, caracterizado por tensões, especialmente as que atingem povos inteiros reféns de conflitos intermináveis, de rupturas e desmoronamentos de valores fundamentais como os do respeito mútuo, à vida em todas as suas dimensões, hospitalidade e religiosidade, trazendo consequências negativas que se fazem sentir, principalmente, na família e na educação.

Diante de toda esta revolução tecnológica que aparentemente aproxima as pessoas, como, por exemplo, a internet e suas redes sociais, o adolescente continua só – mesmo sendo característica desta idade a pertença a um grupo –, inquieto, desamparado, refém do imediatismo. Contudo, ele quer chamar a atenção para as potencialidades que sabe que tem, afinal, não podemos desconsiderar que os adolescentes são sujeitos de direitos e deveres garantidos a eles pelo Estatuto da Criança e do Adolescente. Não é só a comunidade escolar e os pais que devem ficar atentos ao mundo que cerca o adolescente. A Igreja também!

O ECA, em seu artigo de número 98, é bastante claro quando diz que: “As medidas de proteção à criança e ao adolescente são aplicáveis sempre que os direitos reconhecidos nesta lei forem ameaçados ou violados, por ação ou omissão da sociedade ou do Estado; por falta, omissão ou abuso dos pais ou responsável; ou em razão de sua conduta”.

E eles, sabedores, se posicionam. São os adolescentes das recentes ocupações das escolas da rede estadual da educação de São Paulo, por ocasião do remanejamento proposto pelo secretário estadual. São os jovens que ocuparam as escolas técnicas em repúdio à máfia da merenda escolar. O grito de indignação pela violência sofrida pelas mulheres e minorias, dentre outras que todos os dias assistimos nos telejornais ou somos informados pelas redes sociais. Foram eles também que deixaram o Papa Francisco e o mundo boquiabertos com sua presença maciça na praia de Copacabana, por ocasião da Jornada Mundial da Juventude, no Rio de Janeiro, em 2013. E para a próxima JMJ de 2016, em Cracóvia, o Noticiário da Rádio Vaticano (31/06) informa que do Brasil espera-se a chegada de 10 mil jovens, e é daqui também o maior número de voluntários inscritos.

Como a sociedade e a catequese respondem a este paradoxo, se paralelo a este protagonismo os adolescentes precisam e muito de um acompanhamento por parte da família, do Estado e da Igreja para que possam ter assegurados todos os seus direitos?

De acordo com o Censo de 2010, são 45 milhões de adolescentes de 10 a 19 anos no país, nas realidades mais diversas.

São adolescentes e jovens que, ao buscarem a catequese da crisma, buscam respostas para seus questionamentos, pois, para alguns, a comunidade é o único referencial confiável para respondê-los.

Os catequistas em nossas comunidades recebem formação adequada que os capacitem para uma evangelização que corresponda aos anseios deles?

É preciso levar a sério esta missão, e o Papa Francisco tem nos alertado em suas homilias e pronunciamentos e demonstrado, com suas atitudes, o que precisamos fazer em nossas comunidades. “Quanto desejo que (…) as nossas paróquias e as nossas comunidades cheguem a ser ilhas de misericórdia no meio do mar da indiferença” (Mensagem do Papa Francisco para a Quaresma de 2015).

Que catequistas seremos para o hoje de nossos adolescentes e jovens?

O catequista, para o catecumenato crismal, precisa ser aquele que conhece a realidade onde seus catequizandos estão inseridos, que procura se manter atualizado e que tem conhecimento do universo do adolescente. Um catequista que, ao comunicar a mensagem cristã, não dê ênfase somente para o erro, para o pecado, mas também para misericórdia de Deus. Precisa demonstrar interesse pessoal por cada um deles, favorecendo a cultura do encontro, como nos recomenda o Papa Francisco. Um encontro do olhar nos olhos, do abraço, da acolhida.

Também é um catequista capaz de tratá-los com respeito, aceitando-os como são e caminhando com eles, favorecendo o seu crescimento. O catequista não pode tratá-los como crianças. Ao mesmo tempo, precisa ser capaz de reconhecer a carência afetiva que carregam consigo.

É um catequista capaz de lutar por eles, que desenvolva atividades que possam favorecer e aprofundar seu senso crítico, de cristãos atuantes, capazes de transformarem-se para depois serem agentes de transformação. Tem mais. É um catequista que procura preparar os encontros catequéticos a partir da realidade.

Encontros que ofereçam o que o adolescente busca: compreensão, afetividade, amor e fé.

Neste sentido, as escolas da rede pública e também algumas da rede privada já reconheceram que, diante das transformações pelas quais o mundo está passando, é necessária a participação dos adolescentes em suas reuniões de planejamento para a construção de um ensino que favoreça a eles uma aprendizagem vinculada à descoberta de seus dons e talentos, nascendo a transmissão do conhecimento também através de projetos.

A catequese deve beber desta fonte. Reconhecer a capacidade dos adolescentes, convidá-los e ouvi-los quando do planejamento dos conteúdos da fé, mas também com temas que façam parte do cotidiano. Entenda-se aqui que não estamos desconsiderando a doutrina da Igreja, mas almejando que os adolescentes, entendendo, apliquem estes ensinamentos na vida. E o farão se participarem mais efetivamente desta construção.

Assim como as crianças, eles também querem entender para viver.

A força que eles carregam, apesar de toda fragilidade, é perceptível quando são confiadas a eles algumas participações, e é o que vemos nas festas da comunidade. Neste sentido, os projetos na catequese, planejados com a ajuda deles, favoreceriam a compreensão dos conteúdos da fé. Precisamos nos abrir a esta perspectiva, se quisermos que eles encontrem de fato sentido na catequese nesta fase de transição, descobertas e autoafirmação, e adquiram autonomia e maturidade cristã quando tudo lhes parece tão relativo.

Enfim, um catequista que “bote-fé” neles!

[1]       Pedagoga, coordenadora de catequese da Diocese de Bragança Paulista-SP, coordenadora pedagógica do Ensino Fundamental II e Médio.