A memória pascal no itinerário catequético

Pe. Antonio Francisco Lelo

Todo itinerário catequético encontra seu eixo de sentido na Eucaristia, visto que este sacramento é o centro da vida cristã; é a coroa da iniciação cristã, ou seja, é o ápice de todo o processo de iniciação, mesmo que depois dele aconteça a celebração da confirmação. Por que isto?

Na iniciação cristã, o anúncio do querigma coloca a pessoa em contato direto com o Senhor com sua proposta de graça, de salvação e de realização humana. Os valores de justiça, verdade, dignidade e bem comum brilham radiantes em cada proposição do Senhor.

Na sequência, o discipulado traça uma convivência com o Senhor pela qual estes valores se sedimentam na consciência e na atuação do seguidor. Sabemos que, justamente, tais valores vão no rastro do messianismo do Servo de Javé, muito diferente do poder político, mundano e poderoso que decididamente Jesus rejeitou e, por isso, a cruz lhe foi erguida para ratificar seu duro anúncio de salvação.

A linguagem sacramental esconde e revela o mistério do messianismo de Jesus. O pão e o vinho da Quinta-Feira Santa antecipam a realidade do sacrifício cruento, desfecho da prática abnegada do Senhor em favor dos deserdados. E, ao longo da história, estes elementos serão a base da memória deste acontecimento principal da nossa fé.

O seguimento de Cristo tem início no Batismo e, sacramentalmente, se cumpre quando oferecemos nossa vida unida ao sacrifício de Cristo. Assim, ao longo da existência do fiel, a promessa de viver a fé batismal se transforma em realidade na medida em que fazemos de nossa vida um sacrifício de louvor, uma oferenda perfeita em comunhão com a entrega de Cristo.

Todo itinerário de formação da fé eucarística nos leva a entender que o sacramento é expressão ritual da forma de viver de Jesus, por exemplo: quando ele nos conta a parábola do bom samaritano, ele próprio é o bom samaritano que socorre o próximo caído nas estradas e sarjetas. O ponto final deste modo de viver é a realidade última do sacramento: o seu sacrifício na cruz. Aí não reservou nada para si: “Eis o meu corpo – tomai e comei”; “Eis o meu sangue – tomai e bebei”; é a realidade do corpo entregue e do sangue derramado, isto é, do amor “até o fim”. Este amor é insuperável.

O sacrifício pascal ficou sacramentado nos sinais do pão e do vinho, sobre os quais invocamos o Espírito Santo e rezamos a solene ação de graças ao Pai em comunhão com a Igreja celeste. A Eucaristia é a comunhão real do fiel com a Páscoa do Senhor, que entregou sua vida para nos salvar. Tal comunhão implica exprimir na vida a realidade que o sacramento significa: a entrega sacrificial de Cristo por amor aos outros.

Ao entrarmos em comunhão com o sacramento do seu sacrifício, significa que comungamos com esta mesma missão ou forma de viver, comprometemo-nos com ela; assim, trava-se uma aliança selada no sangue de Cristo. Fica longe desta realidade comungar apenas para pedir graças.

A formação eucarística requer um equilíbrio entre ensino e exaltação da presença sacramental e participação no sacrifício eucarístico. A tendência atual é ressaltar mais a primeira, porque nos compromete menos. No entanto, a presença no sacramento existe para nos possibilitar entrar em comunhão com o sacrifício de Cristo. Comungar o Corpo e o Sangue do Senhor põe à luz o empenho de nossa caridade, a acolhida com fé dos sinais do Reino, a comunhão com aquele que sofre, o cumprimento da vontade do Pai na missão que ele nos chamou… Comungar o sacrifício é abraçar o Cristo na cruz.

Ao considerarmos o itinerário de fé eucarística, tenhamos presente o quanto é importante fundamentarmos a dimensão ritual celebrativa com a correspondente postura ética a ser assimilada pelo catequizando. Ambas as dimensões encontram sua razão de ser no mesmo Evangelho anunciado.