O rosto da misericórdia

O rosto da misericórdia

“Pensei muitas vezes no modo como a Igreja pode tornar mais evidente a sua missão de ser testemunha da misericórdia. É um caminho que começa com uma conversão espiritual; e devemos fazer este caminho. Por isso decidi proclamar um Jubileu Extraordinário que tenha no seu centro a misericórdia de Deus. Será um Ano Santo da Misericórdia. Queremos vivê-lo à luz da palavra do Senhor: “Sejamos misericordiosos como o Pai”.

Com estas palavras, o Papa Francisco, no dia 13 de março, durante celebração da penitência, na Basílica de São Pedro, no Vaticano, surpreendeu a todos ao comunicar a sua intenção de promulgar o 29o Jubileu da História da Igreja: o Ano Santo da Misericórdia. Este comunicado foi acolhido com grande alegria por todas as pessoas de boa vontade.

Por que o Papa convocou o Ano Santo

“Há momentos em que somos chamados, de maneira ainda mais intensa, a fixar o olhar na misericórdia, para nos tornarmos nós mesmos sinal eficaz do agir do Pai. Foi por isso que proclamei um Jubileu Extraordinário da Misericórdia como tempo favorável para a Igreja, a fim de se tornar mais forte e eficaz o testemunho dos crentes” (O rosto da misericórdia, n. 3).

Após a leitura da apresentação oficial do Jubileu Extraordinário do Ano Santo da Misericórdia, durante a homilia, o Papa explicou por que decidiu antecipar em dez anos a convocação de um novo Jubileu.

“Simplesmente porque a Igreja é chamada, neste tempo de grandes mudanças epocais, a oferecer mais vigorosamente os sinais da presença e proximidade de Deus. Este não é o tempo para nos deixarmos distrair, mas para o contrário: permanecermos vigilantes e despertarmos em nós a capacidade de fixar o essencial”, disse o Papa.

O que é um jubileu

A palavra jubileu vem do hebraico yobel, que faz alusão ao chifre do cordeiro que servia de instrumento. Jubileu provém também da palavra latina iubilum, que significa “grito de alegria”.

O jubileu era, para o povo hebreu, um ano declarado santo que acontecia a cada 50 anos. Chamado de ano sabático, nele eram libertados os escravos, as dívidas eram perdoadas e as terras, deixadas de ser cultivadas. Este ano tinha um objetivo preciso: restituir a igualdade a todos os filhos de Israel, oferecer novas possibilidades às famílias que tinham perdido suas propriedades e até mesmo a liberdade pessoal.

Na Igreja Católica, a tradição de celebrar um Ano Santo teve início, com o Papa Bonifácio VIII, em 1300, e assumiu um significado novo. Consiste em um perdão geral, uma indulgência aberta a todos e uma possibilidade de renovar a relação com Deus e com o próximo.

A celebração de um jubileu ocorre durante um ano, daí que esse ano seja chamado de “Ano Santo” ou “Ano jubilar”. O jubileu pode ser ordinário: celebrado, desde 1475, a cada 25 anos, para possibilitar que cada geração vivesse pelos menos um ano santo. Até hoje, foram realizados 26 anos santos ordinários. O último foi o Jubileu do ano 2000. O Extraordinário é proclamado pelo Papa para celebrar algum evento de particular relevância.

A misericórdia e o Papa Francisco

Com o Jubileu da Misericórdia, o Papa Francisco coloca no centro das atenções o Deus misericordioso, que convida todos a voltar-se para ele. O encontro com ele inspira a virtude da misericórdia.

“Sede misericordiosos como o Pai” é o lema deste Jubileu Extraordinário, versículo retirado do Evangelho de São Lucas 6,36. Durante o ano jubilar, as leituras para os domingos do tempo comum serão extraídas do Evangelho segundo Lucas, chamado “o evangelista da misericórdia”. Algumas das parábolas mais conhecidas escritas por ele são as do capítulo 15: da ovelha perdida, a da moeda perdida e a do pai misericordioso.

Na sua mensagem para a Quaresma de 2015, o Papa Francisco deixou votos de que as paróquias e comunidades católicas se tornem “ilhas de misericórdia no meio do mar da indiferença”. A palavra misericórdia aparece mais de 30 vezes na primeira exortação apostólica do papa Francisco, A alegria do Evangelho (Evangelii gaudium).

“Estou convencido de que toda a Igreja poderá encontrar neste Jubileu a alegria de redescobrir e fazer fecunda a misericórdia de Deus, com a qual todos somos chamados a dar consolo a cada homem e cada mulher de nosso tempo. Confiamo-lo a partir de agora à Mãe da Misericórdia para que dirija a nós seu olhar e vele em nosso caminho.”

Significado da indulgência

O Papa Francisco esclarece o significado profundo da indulgência, na bula O rosto da Misericórdia, n. 22: “Apesar do perdão, carregamos na nossa vida as contradições que são consequências dos nossos pecados. No sacramento da Reconciliação, Deus perdoa os pecados, que são verdadeiramente apagados; mas o cunho negativo que os pecados deixaram nos nossos comportamentos e pensamentos permanece. A misericórdia de Deus, porém, é mais forte também do que isso. Ela torna-se indulgência do Pai que, através da esposa de Cristo, alcança o pecador perdoado e liberta-o de qualquer resíduo das consequências do pecado, habilitando-o a agir com caridade, a crescer no amor em vez de recair no pecado. (…) Portanto, viver a indulgência no Ano Santo significa aproximar-se da misericórdia do Pai, com a certeza de que o seu perdão cobre toda a vida do fiel. A indulgência é experimentar a santidade da Igreja que participa em todos os benefícios da redenção de Cristo, para que o perdão se estenda até as últimas consequências aonde chega o amor de Deus”.