O discipulado como método na IVC

DiscipuladoO RICA compreende a iniciação em função do itinerário espiritual dos adultos, a ser percorrido ultrapassando etapas, e tem a conversão como princípio metodológico de seguimento. O tempo específico do catecumenato é concebido como um período de discipulado, de aprendizado da prática de Jesus, para que haja uma conversão progressiva às atitudes e valores do Reino.

Essa característica definidora do tempo próprio do catecumenato torna-se uma meta estendida a toda a comunidade que se considera seguidora do Senhor. Queremos ser discípulos, deixarmos de ser multidão anônima que somente corre atrás de milagres, de curas e de libertações, para seguirmos o Mestre, e sermos seus amigos íntimos, conviver com ele e termos um coração parecido com o dele.[1]

Portanto, a marca principal do catecumenato é promover o discipulado tal como exercício de aprendizagem do seguimento de Jesus, que durará toda a vida do cristão. Assim, como uma amizade que só aumenta com o passar dos anos.

No tempo do catecumenato, o mais longo deles, ocorre a catequese integral da história da salvação e do creio, as celebrações da Palavra, os exorcismos menores e as bênçãos, e a entrega do Creio e do Pai-Nosso. Estas celebrações acompanhadas das catequeses bíblicas e mais a celebração de inscrição do nome promoverão a transformação da mentalidade, das atitudes para adquirir os sentimentos e o modo de ver o mundo segundo o coração de Jesus.

Nossos hábitos e valores não mudam do dia para a noite. O que importa mesmo é amadurecer a fé, com critérios e juízos capazes de dar pleno sentido à vida, muito além do mero consumismo ou do sucesso vazio que a sociedade apregoa. O catequizando aprenderá a nortear sua ação na sociedade como cristão e a valorizar sua comunidade de fé. A pedagogia catecumenal concebida como formação integral exercerá grande papel para o catequizando adquirir o novo critério de vida. Esta pedagogia se estenderá como princípio de formação da fé em todas as idades, assim como acontece com o querigma e a mistagogia.

Ser cristão não é simplesmente aprender e aceitar uma doutrina, ser fiel a determinadas normas, observar algumas leis, mesmo sendo aspectos sem dúvida importantes. É uma decisão urgente para saber quem somos, qual é o nosso projeto de vida e onde vamos buscar forças para lutar. É seguir uma pessoa que nos atrai a si e conquista o nosso coração. É responder ao seu chamado e colocar-se a caminho, seguindo seus passos. É percorrer um itinerário de fé e compromisso.

O RICA atribui à ação do Espírito Santo a concreta realização do itinerário de maturação integral da fé. A conversão e a configuração em Cristo têm relação com a ação do Espírito Santo, considerado como aquele que torna o candidato disponível para acolher o anúncio e assimilar pessoalmente o Evangelho.[2] O candidato deverá pôr em ação o seu coração, sua inteligência e sua maneira de viver.

Para sermos discípulos, vamos partir do sentido de fé que já se despontou em nosso coração, especialmente, por termos encontrado o Senhor naquelas situações mais difíceis que ele nos ajudou atravessar, e aceitá-lo definitivamente como o enviado por Deus Pai para a salvação do mundo. A fé em Jesus está na origem e no caminho de seguimento, que acontece em meio a luzes e sombras. Todo o relacionamento recíproco entre Jesus e seus discípulos se desenvolve no horizonte da fé nele como o Messias.

A celebração de entrada no catecumenato com a assinalação da cruz, a entrada na Igreja, a celebração da Palavra e a entrega do livro do Evangelho, marcará o início da vida fé na comunidade.[3]

Seguimento

A dinâmica do processo catequético constitui-se em lugar privilegiado para levar o catequizando a colocar-se na escola do Mestre Jesus e assimilar seus ensinamentos. “Fazer discípulos” é aprofundamento do seguimento e implica renúncia a tudo o que se opõe ao projeto de Deus e diminui a pessoa. Leva à proximidade e intimidade com Jesus Cristo e ao compromisso com a comunidade e com a missão.[4]

Seguir é colocar-se na dinâmica do caminho e engloba a assimilação de um modo de viver. O catecumenato, como período mais longo da IVC, tem o objetivo de mostrar que é Jesus quem toma a iniciativa de chamar o catequizando; como também, de forma pessoal, é ele quem forma e o envia em missão.

Chama

Jesus inaugura sua atividade missionária convidando algumas pessoas do meio do seu povo para segui-lo e partilhar com ele a vida, a missão e o destino. Ele chama com autoridade e sem dar nenhuma explicação (cf. Mc 1,16-20; Mt 4,18; Lc 1–11; Jo 1,35-43).

Com o convite: “Vem e segue-me” (Mt 19,21c), Jesus dá o primeiro passo para que possa acontecer o encontro com ele. A vocação nasce desse encontro com o Senhor. “O caminho de formação do seguidor de Jesus lança suas raízes na natureza dinâmica da pessoa e no convite pessoal de Jesus Cristo, que chama os seus pelo nome e estes o seguem porque lhe conhecem a voz.”[5] Ao lado dos homens, Jesus também convoca mulheres para a missão.

Reconhecemos o seu chamado que já aconteceu em nosso Batismo, visto que o número dos catecúmenos é pequeno, diante de nossa prática atual do Batismo de crianças. Este chamado está latente em nosso coração, pois o banho batismal nos inseriu para sempre no Corpo Ressuscitado de Jesus. Fomos incorporados nele e, por isso, fomos chamados ao seu mesmo destino.

Cabe a nós, movidos pela força do Espírito Santo, permanecer com o Senhor para conhecer o mistério de sua pessoa. “Essa foi a maravilhosa experiência daqueles primeiros discípulos que, encontrando Jesus, ficaram fascinados e cheios de assombro ante a excepcionalidade de quem lhes falava, diante da maneira como os tratava, coincidindo com a fome e sede de vida que havia em seus corações.”[6]

A maneira mais eficaz de nos tornarmos discípulos é responder a este chamado, aceitar o convite para ser seu amigo e abrir-lhe o coração com confiança. A amizade com o Senhor não defrauda ninguém.

Forma

Em um caminho de fé, a intimidade da amizade com o Senhor nos revela quem ele é e o que quer de nossa vida. Somente convivendo com ele é possível encontrar a novidade de sua pessoa. Neste ponto, o Evangelho segundo Marcos é bárbaro! Jesus começa seu ministério público na Galileia, realizando sinais que demonstram a chegada do Reino em sua pessoa. Ele cura doentes, perdoa pecados, expulsa demônios, sacia a fome e abençoa crianças. Os discípulos se alegram e reconhecem nele o Messias. É o texto clássico de Marcos 8,27-38, no qual Pedro o revela como o Messias enviado, porém, seus olhos embaçados ainda o confundem com o Messias super-homem que restauraria o poder de Israel.

Nos capítulos seguintes, Jesus dará conta de demonstrar seu messianismo como Servo Sofredor, que atrai tudo e a todos pelo amor.

Descobrir a identidade de Jesus coincide com a pergunta: qual é o teor da prática de Jesus junto aos seus discípulos? Seu ensinamento supera a justificação pela prática da Lei; as parábolas demonstram que o Reino inaugura uma nova maneira de as pessoas se relacionarem. Os sinais que realiza comprovam a nova realidade: “Eu vim para que todos tenham vida” (Jo 10,10). No entanto, faltará a prova final dos discípulos: subir com o Mestre para Jerusalém para celebrar a Páscoa – eis o ensinamento central e definitivo.

A relação mestre/discípulo não se limitará ao fato de ensinar e aprender uma doutrina, mas é uma comunhão vital com Jesus e se traduz na obediência incondicional à sua palavra. Os seguidores de Jesus participam de sua vida, de suas atividades, particularmente do anúncio do Reino. Nesse sentido, nosso amor por Jesus deverá ir além do sentimento de adoração, piedade e de confiança numa cura ou milagre que precisamos muito, mas se traduzirá na postura decidida em favor da verdade, da justiça e da solidariedade, sem conluios com a corrupção ou o benefício próprio em detrimento dos demais…

A formação catecumenal suscita o ser e o viver conforme Jesus. É preciso escutá-lo, viver em comunidade e cumprir o duplo mandamento fundamental: amar a Deus e ao próximo. Escutar Cristo significa, primordialmente, compreender o Evangelho e acolhê-lo na fé, confiando em sua sabedoria e aderindo inteiramente a ele.

“Não se trata de repetir mecanicamente o que Jesus fez, pois ele viveu num contexto diferente do nosso. Trata-se de perguntar-se, a cada momento, o que Jesus faria se estivesse em meu lugar, hoje? Para responder a esta pergunta, é necessário conhecer o que Jesus fez e ensinou! O seguidor deve reproduzir a estrutura fundamental da vida de Jesus: encarnação, missão, cruz e ressurreição e, ao mesmo tempo, atualizá-la, inspirado e animado pelo Espírito de Jesus e de acordo com as exigências do contexto em que vive.”[7]

Envia

Ao ser ressuscitado, Jesus derrama o seu Espírito sobre os discípulos de todos os tempos, lhes confere o poder contra o mal e os envia para anunciar o Reino a todo canto da terra. Os três sacramentos da iniciação cristã selam tal realidade. De ora em diante, o testemunho pessoal de adesão ao Mestre e a vida nova que seu caminho nos leva constituem a nova etapa que se abre como projeto de realização da vida cristã.

A resposta positiva ao chamado de Jesus faz a pessoa entrar na dinâmica do Bom Samaritano (cf. Lc 10,29-37), tornando-a próxima, especialmente dos que sofrem. É um sim que compromete radicalmente o discípulo e o faz tornar-se, com Jesus e em Jesus, Caminho, Verdade e Vida da humanidade (cf. Jo 14,6).[8]

O Reino é uma nova maneira de viver e conviver a partir da Boa-Nova que Jesus nos trouxe de que Deus é Pai e que, por isso, todos somos irmãos e irmãs. Portanto, educar-se para o Reino, mais que assimilar verdades, trata-se de adquirir um novo jeito de agir e de pensar conforme a pessoa e a missão do Mestre.

[1]   Cf. NUCAP. Discipulado: da multidão ao seguimento. São Paulo: Paulinas, 2015.

[2]   RICA 1, 4, 9

[3]   Cf. RICA 76, 131, 374.3-4

[4] Cf. CNBB, Diretório Nacional de Catequese, n. 34.

[5]   Documento de Aparecida, n. 277.

[6]   Documento de Aparecida, n. 244.

[7]   BOMBONATTO, Vera Ivanise. Discípulos missionários hoje: catequese, caminho para o discipulado. In: COMISSÃO EPISCOPAL PASTORAL PARA A ANIMAÇÃO BÍBLICO-CATEQUÉTICA DA CNBB. 3a Semana Brasileira de Catequese – Iniciação à vida cristã. Brasília: Edições CNBB, 2010. p. 169-185, aqui p. 171-172.

[8]   Cf. CELAM, Documento de Aparecida, nn. 135-136.